Queria muito passar o Carnaval sem postar nada mas me lembrei de um texto antigo que publiquei no Foco Regional e que se parece com o carnaval do Rio ou melhor com o desfile oficial das Escolas de Samba da cidade maravilhosa. Há algum tempo, o carnaval virou show de transmissão da Globo que, como no futebol, determina os horários, que destaque vai aparecer, que escola vai empolgar mais. Sim é a TV quem nos mostra o público na Sapucaí empolgado ou não com a apresentação de determinada escola e no dia seguinte, através da critica e da cobertura do evento,ensina-nos quem deve vencer o certame. Estranho mas como no texto abaixo, Falta Cultura, às vezes Arte mas principalmente um dia vai faltar sambistas nas Escolas de Samba.
FALTA CULTURA, ARTE E ARGILA.
Numa pequena cidade do interior do Brasil, uma artesã fabrica suas peças em argila, aproveitando o que ao meio ambiente pode oferecer ao sustento seu e de sua família.
Numa manhã de sol enquanto leva seus produtos ao forno rústico no fundo de sua casa de barro aparece uma moça de uniforme, querendo saber como se dá o processo de criação de sua arte. Era a moça do SEBRAE. Enquanto explica como aprendeu o oficio-arte de seus antepassados, (sua bisavó já fazia galinhas d’angola do barro que brota nos arredores) e fala do forno que herdou de sua mãe, famosa artesã daquela localidade, não percebe a cilada que envolve esta visita repentina e o quanto a sua arte e cultura pode estar ameaçada.
Um mês depois, um grupo formado por um gerente de banco, um engenheiro de produção, um advogado, uma equipe de TV daquele programa Pequenas Empresas Grandes Negócios e a moça do SEBRAE voltam àquela comunidade. Oferecem a Cidinha (assim era conhecida), a possibilidade de ampliação do seu “negócio” com treinamento, otimização dos recursos naturais, naquele momento abundantes na região, montagem de uma linha de produção com fornos elétricos com controle de temperatura, tudo financiado pelo banco e registrado pelas câmeras da rede de televisão.
Um ano depois, Maria Aparecida já contava com uma imensa indústria de artefatos de argila, galinhas d’angola saíam dos fornos às milhares, tinha mais de 20 funcionários, todos com registro em carteira, vale transporte, vale refeição, etc; da pequena vila em que morava e de onde tirava seu sustento, nada mais restava a não ser a população pobre, cujo único sonho era trabalhar naquela fábrica. E haja treinamento, otimização de recursos, montagem de linha de produção, financiamentos bancários e matérias para a TV.
Hoje, Maria Aparecida é uma empresária de sucesso. Paga religiosamente os empréstimos que ainda tem de contrair com o banco para ampliar a sua produção. Sua filha mais nova foi para São Paulo, fez faculdade de artes e pós-graduação em design; trabalha em seu escritório no Rio de Janeiro e de lá manda para a mãe os desenhos dos produtos que desenvolve, editou um livro sobre como montar seu próprio negócio e dá palestras em diversas localidades com o tema: como obter sucesso no mundo globalizado. Naquela pequena cidade do interior do Brasil ninguém mais sabe fazer galinhas d’angola sem os moldes, fornos e linha de produção. Sem financiamento do banco então, nem pensar. Parece um final feliz e, seria se não fosse um detalhe: a cultura e a arte de fazer galinhas d’angola de barro, acabou, e a próxima etapa será a total falta de argila.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
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